CASA DE FERREIRO
Por Heitor Pereira
Somos todos esquecidos
Hoje recebi uma triste notícia, Cacau, funcionária do Sindipetro Sergipe/Alagoas, foi demitida, a menos de uma semana do resulta- do das eleições da nova diretoria do Sindipetro.
Alguém lembra da Cacau? Provavelmente nem todos lembrem dela. Possivelmente quem nem estava por aqui quando Cacau entrou no Sindipetro lembre-se dela. Mas quando Cacau entrou no Sindipetro ela já atuava no movimento dos tra- balhadores, no teatro Mambembe, na CUT, no Sindiquímica, onde tivesse movimento era fácil ver Cacau.
Na década de 80, não lembro exatamente o ano ou o dia, mas era domingo e eu e Edmilson Araujo, então dirigente do Sindiquimica nos encontramos em uma sala do Edifício Jangada e lá estava Alberto Calazans, era o gráfico do Sindiquímica.
Era domingo, eu nem era dirigente sindical e lá na sede do Sindiquímica rodamos o primeiro exemplar do Jornal 2004, cujo nome fazia alusão à Lei de 2004;. Isso mesmo:a do monopólio da Petrobrás.
Na segunda-feira estávamos distribuindo na sede da Petrobrás da Rua Acre um jornal que denunciava o risco de privatização da empresa. Nos chamaram de agitadores loucos, pois , diziam eles, “a Petrobrás jamais será privatizada”.
Porque conto essa história? Porque ela foi esquecida, assim como as pessoas que ajudaram a distribuir aquele jornal estão sendo. As mesmas pessoas que nos ajudavam a fazer piquetes nas greves, distribuiam os boletins “Ouro Negro”, ajudaram na construção de uma direção sindical que tirasse o Sindipetro do ma- rasmos dos idos da ditadura militar e o fizesse novamente uma ferramenta de luta da classe.
Em cada passo que dávamos estavam lá juntos conosco, e Cacau estava lá, alguém lembra? Creio que poucos se lembrem.
De fato, muitos dos que transformaram o Sindipetro Sergipe Alagoas em um sindicato de luta, que não se rendeu a governo algum, foram esquecidos, alguns abandonados mesmo, morrendo distantes de seus amigos e companheiros de luta.
De certa forma somos todos esquecidos.
Pois ao lembrar deles teríamos de lembrar do que nós já fomos e que agora, não somos mais.
Paulão de CP, morreu de trombose pós operatória, sozinho dentro da sede do sindicato em Carmópolis 15 dias após a cirurgia que fez no joelho !!! Era para Paulão estar lá sozinho? Paulão foi esquecido.
Quando reclamamos do modo vil que a empresa nos trata; quando reclamamos do ambiente hostil e de assédio a que somos submetidos dentro da empresa, ambiente hostil esse que nunca deixou de existir, fosse qual fosse o governo, nos damos conta de que podemos estar reproduzindo esse mesmo ambiente hostil dentro do sindicato?
A relação que um funcionário do sindicato tem com o sindicato é a mesma que temos com a empresa? Claro que não, não apenas porque eles não produzem mais valia, mas acima de tudo, por que parte do trabalho que eles fazem é o trabalho que nós deveríamos estar fazendo caso o sindicato não tivesse funcionários.
Então para que tenhamos tempo para organizar os trabalhadores, unir os trabalhadores, fazer política com os trabalhadores, combater as investidas patronais, é que temos ombro a ombro os funcionários do sindicato, fazendo parte de nosso trabalho.
Quando demitimos um funcionário do sindicato, demitimos parte de nós.
Quando demitimos um funcio-nário do sindicato devemos estar com tempo de sobra.
Um motivo justo para demitir um funcionário de sindicato é ele ter sido responsável por uma traição à classe trabalhadora, ou ter sido responsável, com suas ações, por uma derrota na luta da classe, não é mesmo?
Os responsáveis pela demissão da Cacau devem voltar a se lembrar de quem são, de quem foram um dia. Se é que já foram .
A demissão de Cacau deve ser cancelada, ela não foi esquecida.
Heitor Pereira Alves Filho Geólogo da Petrobrás aposentado Ex-dirigente do Sindipetro AL/SE