Conte-me uma História: o 13º salário, o “perigo vermelho” e a vitória da luta trabalhadora

Nesta semana em que será paga a segunda parcela do 13º salário aos trabalhadores brasileiros, é essencial lembrar que esse direito não foi fruto de benevolência estatal ou patronal. Ele nasceu em um contexto histórico de forte conflito social, marcado por inflação elevada, baixos salários, greves e crescente organização sindical no início dos anos 1960.

O Brasil vivia um período de acelerada industrialização e intensa politização da classe trabalhadora. Sindicatos urbanos, federações e comandos de greve pressionavam o Congresso Nacional por mecanismos que garantissem reposição salarial e melhores condições de vida. Foi nesse cenário que o 13º salário foi instituído pela Lei nº 4.090, assinada em 13 de julho de 1962, pelo presidente João Goulart, como resultado direto da mobilização popular e da força do movimento sindical.

A reação das elites foi imediata e agressiva. Entidades empresariais, políticos da direita conservadora e os principais jornais da época atacaram duramente o projeto. A grande imprensa associou o 13º salário ao “avanço do comunismo”, à suposta “cubanização do Brasil” e ao risco de o país seguir o caminho da Revolução Cubana. Editorialistas e lideranças patronais afirmavam que a medida levaria a economia nacional ao colapso, provocaria desemprego, quebraria empresas e lançaria o país em uma convulsão social.

Esse discurso alarmista fazia parte de uma estratégia política mais ampla: criminalizar as lutas operárias, deslegitimar os sindicatos e bloquear qualquer avanço nos direitos trabalhistas, apresentando conquistas sociais como ameaças à ordem econômica e à democracia. Apesar da resistência empresarial, do conservadorismo parlamentar e da campanha ideológica da mídia, a pressão dos trabalhadores prevaleceu.

Com o tempo, o 13º salário consolidou-se como um direito fundamental da classe trabalhadora. Ainda assim, sua origem foi sendo apagada. Hoje, muitos trabalhadores que se dizem de direita, críticos dos sindicatos, da organização coletiva e das greves, usufruem desse benefício sem reconhecer que ele foi duramente combatido pelas mesmas forças políticas e econômicas que agora defendem.

A história do 13º salário demonstra, de forma inequívoca, que direitos trabalhistas não são concessões: são conquistas arrancadas por meio da organização, da mobilização e do enfrentamento social. Recordar essa trajetória é reafirmar a centralidade da luta coletiva na construção de direitos e na defesa da dignidade do trabalho.

Marcos Aurélio Gomes Ribeiro - Professor de História contemporânea do Brasil e Pesquisador do movimento sindical e Operário brasileiro

Fontes históricas:

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp.

GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV.

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

MATTOS, Marcelo Badaró. Trabalhadores e sindicatos no Brasil. Rio de Janeiro: Vício de Leitura.